Se você navegava na internet por volta do ano 2000, com certeza se lembra do barulho do modem conectando na linha telefônica e da paciência necessária para abrir o “Bate-papo do UOL” ou o portal iG. Mas existia um desafio maior naquela época: onde baixar programas sem pegar um vírus em fóruns suspeitos e torrents?
Recentemente, assisti a um vídeo do canal Stackz (do Gustavo Pinheiro) sobre a trajetória do Baidu e do Baixaki, e aquilo me destravou uma memória absurda. Então decidi pesquisar sobre a história real aqui para o TecnoUp, relembrando como um site que começou em uma “garagem” virou um império multimilionário.
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Do “Bug do Milênio” ao Sapoload: O início com Guilherme e Tânia
Tudo começou em 1998. Guilherme Barthel, na época estudante de Ciência da Computação, lançou o Help Info, um site com dicas sobre o “Bug do Milênio”. O bug não parou o mundo, mas o site gerou muitos acessos. Inspirado no americano Download.com, Guilherme evoluiu o projeto para o Sapoload.
Para profissionalizar o negócio, ele investiu R$ 600 para registrar a empresa No Zebra Network (NZN) — o nome veio da ideia de que “não podia dar zebra” (dar errado). Em 2000, o Sapoload foi relançado como Baixaki, pois por motivos obvios, o nome baixaki além de engraçado fazia muito mais sentido ao propósito do site.
“Só conseguia pensar que nada podia dar errado, não podia dar zebra. Na hora veio a ideia de usar isso mesmo, mas em inglês” – Guilherme Barthel, em entrevista para a Info Exame.
Nessa fase inicial, a participação de Tânia Barthel, esposa de Guilherme, foi fundamental. Juntos, eles operavam o site na “garagem” de casa. Como a internet naquela época era lenta demais (baixar 700MB levava 30 horas), os dois tiveram uma sacada genial: eles gravavam softwares e jogos pesados em CDs e enviavam pelos correios para os usuários. Essa dedicação pessoal da Tânia e do Guilherme criou uma base de fãs fiel antes mesmo da banda larga se tornar comum.

A Era de Ouro e o Nascimento do TecMundo
A NZN não parou no Baixaki. Em 2005, nasceu o TudoGostoso, que anos depois foi vendido pela bagatela de R$ 49 milhões. O sucesso foi tanto que a empresa precisou se expandir.
Em 2005, o que antes era apenas uma seção de notícias dentro do Baixaki ganhou vida própria: nascia o TecMundo. Em 2008, o portal se consolidou de vez com o lançamento de conteúdos editoriais próprios, separando definitivamente a notícia de tecnologia do hub de downloads.
O “Maldito” Baidu, Hao123 e as Pragas Digitais
Mas o sucesso trouxe decisões polêmicas. Para monetizar a escala gigante, a NZN fechou uma parceria com a chinesa Baidu, que pra quem não conhece, é basicamente o Google da China. A estratégia era embutir o instalador do Baidu Antivírus e do PC Faster em quase todos os downloads do site, o que acabou queimando a reputação do Baixaki.
A parceria entre o Baixaki e a empresa chinesa Baidu intensificou-se principalmente a partir de 2013, ano em que a Baidu iniciou sua operação oficial no Brasil.
📌 Eu mesmo perdi a conta de quantas vezes tive que formatar PCs de amigos e clientes para desinstalar o Baidu e o Hao123. Eles se tornaram verdadeiras “pragas”: mudavam a página inicial, instalavam barras de ferramentas inúteis e eram quase impossíveis de remover. Nessa época eu trabalhava na TI de uma empresa de transportes aqui em Curitiba, e mesmo com cuidados, vários PCs foram “infectados”. O processo de desinstalação era cheio de pegadinhas, onde você clicava em “Sair” e ele instalava mais uma coisa. Essa parceria minou a credibilidade do Baixaki de forma agressiva.
O objetivo principal do Baidu ao entrar no Brasil, era expandir sua base de usuários internacionalmente e capturar uma fatia do mercado de publicidade online brasileiro, prometendo quebrar a hegemonia do Google que já dominava por aqui. A empresa via o Brasil como um mercado promissor e com alto potencial de crescimento na internet.
📌 O Hao123 é um portal de buscas e agregador de links chinês, pertencente ao Baidu, que frequentemente age como um browser hijacker (sequestrador de navegador). Ele se instala sem consentimento explícito durante o download de outros softwares gratuitos, alterando a página inicial e as configurações de navegadores como Chrome e Firefox para exibir publicidade.

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📺 Bastidores da Crise: Para entender a gravidade dessa época, vale a pena conferir o vídeo abaixo. Nele, Nilton Kleina, ex-editor-chefe do TecMundo, relembra os bastidores dessa polêmica. Ele explica como a necessidade de monetização gerou uma crise de reputação que levou anos para ser superada e como o “next, next, finish” se tornou o pesadelo dos usuários.
O Fim de uma Era: O Grupo Estadão
Com a evolução da internet e das lojas de aplicativos nativas (App Store, Play Store, Microsoft Store), os portais de download perderam muito de sua utilidade. Em outubro de 2025, a história ganhou um capítulo final: o Grupo Estadão adquiriu a NZN, integrando marcas como TecMundo e Baixaki ao seu portfólio.
Curiosidade: O Pós-NZN – Guilherme Barthel deixou o cargo de CEO da NZN em julho de 2015, buscando novos horizontes longe dos cliques e downloads. O seu lado empreendedor o levou para um setor bem diferente: a gastronomia, onde focou no lançamento de uma rede de pizza casual.
Conclusão pessoal: Depois que passei dos 40 anos (pois é, o tempo voa rsss), percebo que o que mais valorizamos hoje é a conveniência sem “pegadinhas”. O Baixaki foi a nossa “App Store” numa época em que a internet era terra de ninguém. O erro do Baidu foi o prego no caixão, mas a nostalgia de esperar horas por um download bem-sucedido ninguém nos tira.
E você? Também sofreu para tirar o Hao123 do navegador ou chegou a receber CDs do Baixaki pelo correio? Comenta abaixo!
