Adolescente usando computador desktop 486 com monitor CRT e internet discada nos anos 90.

Pare um pouco e tente se lembrar: qual foi a primeira vez que você sentiu que o mundo caberia dentro de uma tela? Para quem, como eu, já cruzou a barreira dos 45 anos, essa resposta não envolve fibra óptica ou 5G, mas sim o som inesquecível de um modem tentando estabelecer conexão após a meia-noite.

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O Nascimento de uma Era: O Cyrix e o Príncipe da Pérsia

Minha jornada no mundo da tecnologia começou muito antes da internet ser democrática. Meu pai comprou um computador equipado com um processador Cyrix, porém não me recordo exatamente qual era a versão, mas tenho quase certeza que era a compatível com 486 . Naqueles meados de 1993 e 1994, ter uma máquina dessas era como ter um pedaço do futuro em casa.

Close em um processador antigo da marca Cyrix, modelo 486DRx2, peça histórica da computação compatível com a arquitetura 386.
O emblemático processador Cyrix: a escolha que trazia potência aos nossos PCs nos anos 90 sem o alto custo da concorrência.
(Imagem: Reprodução/Wikipedia)

Foi ali que eu e meu irmão, Gabriel, descobrimos que computadores não eram apenas coisas de cientistas em filmes futuristas. Lembro-me dele instalando o lendário Prince of Persia. Não me recordo exatamente de quantos disquetes eram necessários para aquela instalação épica, mas a sensação de ver os movimentos fluidos e realistas do personagem era de cair o queixo.

Animação em pixel art do jogo Prince of Persia original para MS-DOS, mostrando o personagem correndo e saltando entre plataformas em uma masmorra.
O clássico Prince of Persia: em 1994, ficávamos impressionados com os movimentos realistas do personagem rodando no nosso Cyrix.
(GIF: Reprodução/Wikipedia)

O Laboratório da Escola e a Tartaruga “Logo”

Enquanto em casa tínhamos o Cyrix, na Escola Omar Sabbag em Curitiba onde eu estudava no início dos anos 90, o laboratório rodava apenas em MS-DOS. Sem mouse, tudo era na base do comando. Foi lá que conheci o LOGO (linguagem de programação educacional) aquele software onde comandávamos uma “tartaruga” para fazer traços e formas geométricas através de coordenadas. Era a nossa introdução à lógica de programação.

O “LOGO” na escola Omar Sabbag: O software utilizado era o SuperLogo, desenvolvido pela UNICAMP, ou versões do LCSI Logo. Os alunos usavam comandos como PARA FRENTE 50 ou DIREITA 90 para mover a famosa “tartaruga” e criar formas geométricas. Essa metodologia fazia parte do esforço de Curitiba em introduzir o “construcionismo” de Seymour Papert na rede pública.

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1997/98: O meu Primeiro “Olá” para a Internet

O meu primeiro acesso real à rede mundial aconteceu em meados de 97/98, durante meu estágio de informática na Telepar. Era o início da internet no Brasil. O mundo mudou quando trocamos as máquinas de escrever (que, apesar do meu curso de datilografia, nunca usei profissionalmente) e o fax pelo e-mail.

Adolescente usando computador desktop 486 com monitor CRT e internet discada nos anos 90.
Quando conectar à internet exigia paciência, barulho de modem e muita expectativa.
(Imagem: Gerada por IA/ChatGPT)

Logo que comecei o estágio, uma das primeiras missões foi instalar um modem no meu PC de casa e conectar à internet. Nessa época já tínhamos uma máquina melhor — acredito que era um AMD, embora não me recorde exatamente a configuração. Lembro perfeitamente de comprar um modem US Robotics 56K e usar o provedor Mandic, com a senha de um amigo, para a minha primeira conexão. Tempos depois, assinamos o provedor Sul BBS, que era um clássico aqui em Curitiba.

Antigamente, o provedor de internet era necessário na era da internet discada (anos 90/2000) porque o acesso dependia da linha telefônica, agindo como uma ponte entre o usuário e a rede mundial. O provedor autenticava o acesso, fornecia o endereço IP e direcionava o sinal através do modem, ocupando o telefone. 

Placa de modem interno US Robotics 56K conectada via slot PCI, componente clássico utilizado para conexão de internet discada nos anos 90.
Este era exatamente o modelo que eu tinha: o lendário modem US Robotics 56K que abriu as portas da internet aqui em casa.
(Imagem: Reprodução/Mercado Livre)

Navegávamos no Cadê e no Altavista. O Orkut, o ICQ e o Bate-papo UOL eram nossas praças de encontro. E quando o Google chegou? Bem, ali tudo mudou definitivamente. A internet era lenta, barulhenta, mas parecia muito mais divertida e contemplativa.

Aqui estão algumas curiosidades dessa época:

  • Tarifa Reduzida (Pulso Único): A regra de ouro era esperar a meia-noite durante a semana ou conectar-se aos sábados após as 14h (ou durante todo o domingo) para pagar apenas um pulso telefônico, independentemente do tempo que ficasse online.
  • A “Linha Ocupada”: Ao se conectar, o telefone de casa ficava mudo. Se alguém tirasse o telefone do gancho, a internet caía.
  • O “Handshake” do Modem: Conectar exigia paciência e o famoso barulho de “chiado” (handshake) do modem ao discar para provedores como iG, BR Turbo ou AOL.
  • Velocidade Lenta: A navegação era lenta (geralmente 56K ou menos), tornando o carregamento de imagens demorado e vídeos nem pensar. Bate-papos (ICQ, mIRC, salas UOL/Terra) eram mais populares que sites.
  • Downloads Demorados: Baixar uma música MP3 podia levar horas e era comum usar gerenciadores de download (como GetRight) que pausavam e retomavam a conexão. 
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A Virada de Chave: Da ADSL ao Bolso

As coisas foram melhorando em velocidade, mas talvez tenham piorado em saúde mental. A conexão ADSL trouxe o fim da espera pelo sábado à tarde. O Facebook engoliu o Orkut. Mas o verdadeiro “xeque-mate” veio quando o computador foi parar na palma da mão com os smartphones.

O imediatismo tomou conta de tudo:

  • A urgência do agora: Receber uma mensagem no WhatsApp e demorar para responder virou motivo de estresse em empresas e na vida pessoal.
  • A ditadura do algoritmo: Instagram, pressão por cliques, notícias falsas (fake news) e vídeos curtos do TikTok.
  • Exposição total: A ostentação em grupos e a falta de privacidade, somadas à polarização política, criaram um ambiente de desespero.

E agora, temos a Inteligência Artificial sendo empurrada “goela abaixo” em qualquer app. Eu me pergunto: se nós, que vimos o antes e o depois, estamos exaustos, o que será do futuro dos nossos filhos?

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Em Busca do Equilíbrio: Minha “Desintoxicação” Digital

Não posso ser hipócrita: me considero um viciado em celular, assim como a maioria das pessoas. Por outro lado, não posso negar que muita coisa boa esse avanço trouxe. Eu adoro facilidades como o pagamento por aproximação e a centralização de todos os meus documentos no celular; já faz alguns anos que não uso carteira, cartões físicos ou dinheiro em espécie para nada.

Mas, para manter a sanidade, decidi tomar algumas medidas práticas para diminuir o ritmo frenético:

  1. Relógios Analógicos: Voltei a usar meus velhos Casios e deixei de lado os smartwatches. Menos notificações no pulso significam mais foco no agora.
  2. Notificações Off: Desativei os avisos de todas as redes sociais. Isso me permite ficar até dias sem abrir o Instagram e outras redes.
  3. Desaceleração: Procuro usar a tecnologia para o que ela é boa (como a praticidade dos documentos digitais), mas sem deixar que ela roube meu tempo de contemplação.
Pulso masculino usando um relógio digital clássico Casio F-91W preto, simbolizando a desconexão de notificações de smartwatches.
Menos notificações, mais presença: a troca dos smartwatches pelos meus velhos Casios foi um passo fundamental na minha desintoxicação digital.
(Imagem: Reprodução/TecnoUp)

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Conclusão: O Papo de “Velho” Necessário

Enfim, vivemos novos tempos. Tudo é rápido, mas precisamos de moderação e desaceleração. O equilíbrio e o bom senso devem prevalecer sobre o imediatismo do algoritmo. E antes que comentem que isso parece papo de velho, sim, já tenho 45 anos kkkk — mas talvez essa experiência seja exatamente o que precisamos para não nos perdermos no caos digital.

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